Era só para te dar um beijo... e para perguntar se é tarde demais...
Tal como há quatro anos atrás, o dia era igual, de chuva... e a resposta foi a mesma!
Sinto o teu cheiro em todo o meu corpo, entro no banho contrariada... não estás aqui... o teu cheiro sai da minha pele aos poucos... perde-se em cada gota de água... as lágrimas que começaram a cair quando bati a porta do carro ajudam a tirar-te de mim... não quero... tento voltar atrás, recuperar-te... é tarde... já saíste de mim...
Na cama, consigo cheirar-te ainda... cheiro-me misturada em ti... somos nós... uma só... As estrelas que vimos de tantas cores envolvem-me devagar... sinto o conforto daquela mão invisível que me acompanha todos os dias... as lágrimas param... e agora que não podes ouvir, segredo-te a palavra proibida e resisto à tentação de quebrar a última promessa...
E hoje, não te sentes na cama errada... finges que está tudo bem e brindas à racionalidade...
Deita-te nua de ti
No mármore frio do meu corpo.
Teus olhos fechados sobre o eclipse dos meus.
Seca os teus lábios
Nas feridas dos meus
E deixa-te estar quieta:
Até estas palavras passarem,
Até as sombras se calarem
E o nosso amor silenciar de vez
Este diálogo de vultos.
Fernando Ribeiro, Diálogo de Vultos
A última vez que atravessei aquela ponte foi em Dezembro, ia a caminho de um fim que não o nosso. Vi estrelas sem brilho, vi a lua que se punha no mar e quis-te comigo, quis que fosses tu ao meu lado, que me desses o teu ombro, quis que fosses tu a secar-me as lágrimas, quis que o teu beijo apagasse a dor que me leva as forças.
Pensei em como te sentirás a saber que nunca mais me vais ter, que nunca mais vão haver lutas de dedos, que os olhares não vão mais ser trocados nem as palavras sussurradas ao ouvido... pensei em ti e voltei a querer-te comigo...
Revolto-me sem saber porquê, sem saber se é por ti, se é por mim, se é por nós já não existirmos... revolto-me porque dói, porque fere não te poder voltar a tocar, não voltar a ter o teu cheiro na almofada, não ter o teu beijo nem o teu abraço... revolto-me porque já nem vou poder ler o que pensas, até isso me foi tirado...
E quero acordar, quero despertar do pesadelo negro em que mergulhei... pudesse eu dormir para sempre e não mais me lembrar... pudesse eu algum dia voltar a sorrir para ti...
É o fim que está pintado numa asa arrancada e numa estrela de sangue... é o fim que fica gravado em todos os cortes que faço na pele...
O amor, esse, vai durar pela eternidade... vai arrastar-se pelos séculos até um dia voltar a encontrar-te... e até lá, vou morrendo a cada dia... o fundo do poço agora é só meu...
Não vás... não deixes não ser mais tua... não deixes que me abrigue no porto errado... não deixes que tenha sido tudo em vão...
Quando soarem as dez badaladas verás pela última vez aquela Menina que te chamava das estrelas...
Mais uma das tantas promessas, mais uma das que não cumpri. Mais mentiras minhas, mais palavras prometidas mandadas ao ar, mais uma quebrada. Por que o que melhor sei fazer é quebrar as juras feitas, foi quebrada a jura de não ver o sangue... e assim me assumo mentirosa... agora já nada importa.
Aquelas que te fiz em momentos nossos, aquelas que te disse que seriam para sempre, vão sê-lo. O amor que te jurei eterno continua no cofre que guarda a nossa história. A promessa de ser só tua manteve-se até hoje, a liberdade que te obriguei a dar-me de nada serviu. Sou tua e só tua... e tu nunca vais ser minha. O degrau que subi da escada maldita faz-me ser egoísta, faz-me querer-te só para mim... e sei que não tenho o direito de pedir que não sejas de mais ninguém, mas sou fraca... e castigo-me por isso, por não suportar mais... E o olhar, aquele que foi o teu último e que me atravessou a alma, vai ser relembrado todas as vezes que a promessa de sangue for quebrada, todas as vezes que o sangue vivo for incapaz de trazer dor maior que a que sinto agora...
E pergunto-me por que o mar não me levou, por que me devolveu à vida que me esperava com um castigo cruel... Se há coisa pior que não te ter, é não conseguir ter o que me podes dar...
Espero que o sono me embale na morte doce...
Parecia uma cena de filme ou de novela mexicana de qualidade duvidosa, a música foleira e piegas que fala de amores acabados e o olhar triste a recordar os bons momentos. Para ser perfeito, também ela devia estar do outro lado a pensar no mesmo e as memórias encontravam-se num espaço reservado, lá no alto, onde ficariam guardadas e fechadas em segredo.
Foi porque a recepção não foi a esperada, foi porque a distância foi matando aos poucos com saudades, foi porque imaginar o que lá se passava voltou a cortar em golpes fundos o coração pequeno, foi porque tocá-la era impensável depois daquela semana, foi porque o amor continuou mais aceso que nunca, foi porque a realidade nunca se apagou, foi porque as palavras mal entendidas foram ouvidas no momento menos certo, foi porque os tempos não foram dados, foi porque... Que interessa agora? Não é por saber o motivo que vai doer menos, não é por saber o motivo que a culpa é menor.
“Fim” é uma palavra pequena demais para aquilo que significa, devia ser uma palavra formada por mil e duas letras, daquelas mesmo difíceis de articular... mas não, é pequena, não custa a dizer... diz-se assim à toa como se fosse um suspiro pequenino e sem dar por isso já se disse.
“Fim”, palavra que persegue para todo o lado... ou é o fim que se espera ouvir e nunca se ouve, ou é aquele que nunca se quer ouvir e se ouve a cada maluqueira que passa na cabeça. Será que o próprio fim tem um fim? Existem daqueles momentos em que o que estava acabado deixa de estar e o fim é exterminado e desaparece dos dicionários mentais? Se momentos desses houverem, que não se saibam, que fiquem para sempre fechados em caixas iguais àquelas onde se guardam papéis que contam histórias.
“Fim” dito vezes demais torna-se uma verdade incontornável.
O fim de uns é a feliz continuidade de outros...
* E se...
* ...
* Cheiro
* Juras
* Ela
* Clonagem
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