Sábado, 1 de Novembro de 2008
O Blog da Menina
Aqui!
Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007
...
É com o nascer deste novo dia que chega o momento já há muito adiado. Encerro hoje o espaço dedicado a uma Menina que vivia num blog.
Não há muito a dizer... custa, é um pedaço de mim que fica dentro deste pequeno espaço virtual, são muitos desabafos, muitas alegrias, tristezas mais que muitas...
Agradeço aos que, por algum motivo, ajudaram a construir esta pequena história, que acompanharam, que criticaram, que disseram palavras menos bonitas, aos que apoiaram e que estiveram sempre desse lado, aos que usaram o blog como janela indiscreta para o meu mundo, aos que foram dignos de saber o que outros não sabem...
Agora, é tempo de partir, de ir embora, de desenhar palavras em qualquer outro sítio... encontrar um novo caminho...
Domingo, 5 de Agosto de 2007
Cheiro
Sinto o teu cheiro em todo o meu corpo, entro no banho contrariada... não estás aqui... o teu cheiro sai da minha pele aos poucos... perde-se em cada gota de água... as lágrimas que começaram a cair quando bati a porta do carro ajudam a tirar-te de mim... não quero... tento voltar atrás, recuperar-te... é tarde... já saíste de mim...
Na cama, consigo cheirar-te ainda... cheiro-me misturada em ti... somos nós... uma só... As estrelas que vimos de tantas cores envolvem-me devagar... sinto o conforto daquela mão invisível que me acompanha todos os dias... as lágrimas param... e agora que não podes ouvir, segredo-te a palavra proibida e resisto à tentação de quebrar a última promessa...
E hoje, não te sentes na cama errada... finges que está tudo bem e brindas à racionalidade...
Deita-te nua de ti
No mármore frio do meu corpo.
Teus olhos fechados sobre o eclipse dos meus.
Seca os teus lábios
Nas feridas dos meus
E deixa-te estar quieta:
Até estas palavras passarem,
Até as sombras se calarem
E o nosso amor silenciar de vez
Este diálogo de vultos.
Fernando Ribeiro, Diálogo de Vultos
Sábado, 28 de Julho de 2007
Despedida...
A última vez que atravessei aquela ponte foi em Dezembro, ia a caminho de um fim que não o nosso. Vi estrelas sem brilho, vi a lua que se punha no mar e quis-te comigo, quis que fosses tu ao meu lado, que me desses o teu ombro, quis que fosses tu a secar-me as lágrimas, quis que o teu beijo apagasse a dor que me leva as forças.
Pensei em como te sentirás a saber que nunca mais me vais ter, que nunca mais vão haver lutas de dedos, que os olhares não vão mais ser trocados nem as palavras sussurradas ao ouvido... pensei em ti e voltei a querer-te comigo...
Revolto-me sem saber porquê, sem saber se é por ti, se é por mim, se é por nós já não existirmos... revolto-me porque dói, porque fere não te poder voltar a tocar, não voltar a ter o teu cheiro na almofada, não ter o teu beijo nem o teu abraço... revolto-me porque já nem vou poder ler o que pensas, até isso me foi tirado...
E quero acordar, quero despertar do pesadelo negro em que mergulhei... pudesse eu dormir para sempre e não mais me lembrar... pudesse eu algum dia voltar a sorrir para ti...
É o fim que está pintado numa asa arrancada e numa estrela de sangue... é o fim que fica gravado em todos os cortes que faço na pele...
O amor, esse, vai durar pela eternidade... vai arrastar-se pelos séculos até um dia voltar a encontrar-te... e até lá, vou morrendo a cada dia... o fundo do poço agora é só meu...
Não vás... não deixes não ser mais tua... não deixes que me abrigue no porto errado... não deixes que tenha sido tudo em vão...
Quando soarem as dez badaladas verás pela última vez aquela Menina que te chamava das estrelas...
Quarta-feira, 25 de Julho de 2007
Juras
Mais uma das tantas promessas, mais uma das que não cumpri. Mais mentiras minhas, mais palavras prometidas mandadas ao ar, mais uma quebrada. Por que o que melhor sei fazer é quebrar as juras feitas, foi quebrada a jura de não ver o sangue... e assim me assumo mentirosa... agora já nada importa.
Aquelas que te fiz em momentos nossos, aquelas que te disse que seriam para sempre, vão sê-lo. O amor que te jurei eterno continua no cofre que guarda a nossa história. A promessa de ser só tua manteve-se até hoje, a liberdade que te obriguei a dar-me de nada serviu. Sou tua e só tua... e tu nunca vais ser minha. O degrau que subi da escada maldita faz-me ser egoísta, faz-me querer-te só para mim... e sei que não tenho o direito de pedir que não sejas de mais ninguém, mas sou fraca... e castigo-me por isso, por não suportar mais... E o olhar, aquele que foi o teu último e que me atravessou a alma, vai ser relembrado todas as vezes que a promessa de sangue for quebrada, todas as vezes que o sangue vivo for incapaz de trazer dor maior que a que sinto agora...
E pergunto-me por que o mar não me levou, por que me devolveu à vida que me esperava com um castigo cruel... Se há coisa pior que não te ter, é não conseguir ter o que me podes dar...
Espero que o sono me embale na morte doce...
Terça-feira, 24 de Julho de 2007
A palavra fim
Parecia uma cena de filme ou de novela mexicana de qualidade duvidosa, a música foleira e piegas que fala de amores acabados e o olhar triste a recordar os bons momentos. Para ser perfeito, também ela devia estar do outro lado a pensar no mesmo e as memórias encontravam-se num espaço reservado, lá no alto, onde ficariam guardadas e fechadas em segredo.
Foi porque a recepção não foi a esperada, foi porque a distância foi matando aos poucos com saudades, foi porque imaginar o que lá se passava voltou a cortar em golpes fundos o coração pequeno, foi porque tocá-la era impensável depois daquela semana, foi porque o amor continuou mais aceso que nunca, foi porque a realidade nunca se apagou, foi porque as palavras mal entendidas foram ouvidas no momento menos certo, foi porque os tempos não foram dados, foi porque... Que interessa agora? Não é por saber o motivo que vai doer menos, não é por saber o motivo que a culpa é menor.
“Fim” é uma palavra pequena demais para aquilo que significa, devia ser uma palavra formada por mil e duas letras, daquelas mesmo difíceis de articular... mas não, é pequena, não custa a dizer... diz-se assim à toa como se fosse um suspiro pequenino e sem dar por isso já se disse.
“Fim”, palavra que persegue para todo o lado... ou é o fim que se espera ouvir e nunca se ouve, ou é aquele que nunca se quer ouvir e se ouve a cada maluqueira que passa na cabeça. Será que o próprio fim tem um fim? Existem daqueles momentos em que o que estava acabado deixa de estar e o fim é exterminado e desaparece dos dicionários mentais? Se momentos desses houverem, que não se saibam, que fiquem para sempre fechados em caixas iguais àquelas onde se guardam papéis que contam histórias.
“Fim” dito vezes demais torna-se uma verdade incontornável.
O fim de uns é a feliz continuidade de outros...
Segunda-feira, 9 de Julho de 2007
Ela
Subi a rua já a noite ia clara, já o sol fazia a lua em quarto minguante, horas antes senhora do céu, discreta. Despi a roupa em frente ao espelho e vi a marca do lado esquerdo, perto do coração... na pele trazia, ainda, o cheiro do tabaco de menta, partilhado no cachimbo de água, misturado com as ervas do chá egípcio e as tâmaras sem caroço. .
Não me sentia cansada... seria pelo carro estacionado na esquina que despertou em dois seres, vítimas dos excessos alcoólicos , a curiosidade, e em nós o instinto de defesa, ou então pelo teor das conversas, baseadas em dedos que adivinham e em sonhos mal sonhados, entrecortadas com desabafos e juras secretas, com a premonição de dias maus que se aproximam... poderia ser, também, pela imunidade, ensaiada para os tais dias que hão-de vir, que se alastrou e apagou o cansaço...
O vento ouve-se enfurecido e passam os primeiros carros da manhã...
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar ela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
Alberto Caeiro
Segunda-feira, 25 de Junho de 2007
Clonagem
As folhas amontoaram-se em cima da mesa... DNA, RNA, Genes, Nucleótidos e afins tudo ali para meter na cabeça no espaço de poucas horas.
A primeira frequência é daqui a exactamente quatro horas e quinze minutos. Nessa altura tenho que saber tudo aquilo que durante o semestre me passou ao lado.
Há coisas tão melhores para fazer... por exemplo, contar as bolhas de salitre na parede da janela, ordenar por tamanhos as canetas que já não escrevem e que insisto em guardar... as desculpas são mais que muitas, mas as folhinhas com a matéria, essas, continuam a olhar para mim e a pedir, caridosamente que pelo menos leia as letras grandes... talvez assim o espalho não seja tão grande.
Por que raio tenho que saber todo o processo de clonagem de uma planta? Não estou a ver uma batateira ou uma alface entrar pelo consultório a pedir que lhe faça um clone...
Todas as desculpas são boas para não pegar nos mecanismos e técnicas da biologia molecular e DNA recombinante ... até escrever um post ... É verdade, não brindava o espaço virtual com um post há um mês. Dificuldades técnicas e outras de ordem vária e diversa, impossibilitaram a pequena Menina de exercitar os apêndices digitais no teclado e construir harmoniosas e belas conjugações de palavras.
Sim... é a hora do disparate, vamos ver se também disparato quando a prof . me puser a frequência à frente.
Agora, parece-me boa altura para fingir que vou estudar, a consciência já pesa. Vou ver se descubro como se faz um clone do conhecimento.
Sexta-feira, 18 de Maio de 2007
Cotovia
Não fazia ideia de que se ouvia o cantar das cotovias em Lisboa.
Depois de voltas e mais voltas na cama, o cantar do pássaro a que resolvi chamar cotovia despertou-me para a luz do dia. Abri a janela e reparei que o prédio da frente foi pintado de branco e amarelo, reparei duas semanas depois. Enquanto fazia o café, diverti-me a queimar grãos de açúcar na placa eléctrica que tinha cor de fogo e o cheiro do açúcar queimado invadiu o pequeno T3Portas antes mesmo que o cheiro do café fosse mais forte.
Esta foi sem dúvida a pior insónia de sempre, não preguei olho, pensei em milhares de coisas, puxei o sono e mesmo assim o João Pestana não veio deitar pós mágicos nos meus olhos.
Não é fácil ver daqui o nascer do sol, mas consigo ver o dia chegar devagar... Foi uma noite em branco, salpicada pelas muitas borbulhas que me invadiram o corpo de Menina.
Já nem sei se aguento uma directa, lembro da última vez... mais alguém há-de lembrar...
Durante esta ausência não deixei de escrever, partilho o post que está em baixo, os outros que escrevi ficam para mim.
A vida, essa, continua vazia, mas cheia de outras coisas novas que deviam ser a minha prioridade e que insistentemente deixo para trás. Hoje vou estrear o "meu" consultório, a mãezinha empresta o dela para a minha primeira consulta de verdade. Não estou nervosa, nem insegura, estou certa de que não tenho jeitinho nenhum para lidar com pessoas, estou ciente das minhas limitações, começo a ter sérias dúvidas em relação ao curso e ao meu futuro como profissional de saúde, mas também sei que agora é tarde para voltar atrás e que custe o que custar isto tem que andar para a frente.
Sexta-feira, 11 de Maio de 2007
Faísca
-Tenho que ter cuidado, não te posso tocar, pode fazer faísca.
-Pois, é melhor não.
Nessa altura já eu tremia por todos os lados e tinha o coração a mil e vinte à hora. Ela estava ao meu lado, com a boca mesmo ao meu alcance...
-Sai daqui...
-Não posso supervisionar, queres ver?
-Se não saíres daqui em trinta segundos isto corre mal...
-Fazes o quê?
Olhei-a nos olhos...
-Tás arrependida?Foste tu que acabaste...
-Não é melhor assim?
-Não...
E fez aquele olhar meiguinho e triste que me derrete toda... as mãos tocaram-se... e já não havia nada a fazer... "Às nove na casa de banho!", disse eu quase em desespero por não poder beijá-la ali. Os minutos que se seguiram foram de uma euforia mal disfarçada e pouco controlada.
Já a esperava, quando ela chegou... beijei-a a tremer e penso que ela nem notou... era arriscado demais... pensei mesmo que a qualquer altura ia entrar a única pessoa que não nos podia ver assim juntas.
Saí de lá numa velocidade alucinante, acho que nunca vim tão depressa para casa, tinha uma energia inexplicável e nem os dois anormais que se cruzaram no meu caminho me fizeram abrandar o passo...
"Foda-se, isto não aconteceu!", disse o caminho todo, baixinho, ainda sem conseguir acreditar que tinha o cheiro e o sabor dela comigo, outra vez...
- Desculpa, prometi que não te provocava...
- Às vezes é bom não cumprir as promessas...
- Quantos dias passaram?
- Hum, dois!?
- Fizeste-me passar, hoje...
- Confessa lá, tinhas saudades...
- Não é justo não podermos fazer as pazes como deve ser...
Não, não é de maneira nenhuma... mas é mais injusto ainda eu ter estes ataques de vez em quando e mandar tudo à merda. Não há hipótese, não consigo ficar longe dela. Estaria a ser convencida demais se dissesse que ela também não consegue ficar longe de mim?
Percebi, à custa de muitas cabeçadas que dói mil vezes mais estar sem ela do que tê-la pela metade... é forte demais o que nos une, não o suficiente para dar uma reviravolta nos nossos mundos, mas mesmo assim, vale a pena...